Caminhos de desterro diagonal

O fim aproxima-se todos os dias, afinal. Acreditar que o perecível não morre. Divagações e açoites durante a madrugada imprecisa. Era som de tortura, bem sabia. Mas deixei que passasse. Deixei passar o som odioso de carne lacerada, dentes trincados, sangue pisado. Aceitei estender esse ruído perigoso que é o rumor da dor. Devia arder tudo aquilo, mas devia fazer sofrer mais ao espírito orgulhoso. São sempre assim os fins, indesejáveis. Por mais dor que houvesse, estava fazendo bem essa promessa de temporariedade. Passaria, findaria a dança de desgosto. Avançou a madrugada e pouco se teve de silêncio, era só a vibração macerante da pele rasgada, das tripas soluçantes, angustiadas para ficar dentro – reunida ao prazer nervoso de vê-las para fora! – e o compromisso de arremate. Acaba, termina, conclui... Mas não. Estendia-se até o raiar do dia, onde o corpo agüentava, atravessando a distinção entre uma mão de um pé, um olho de um umbigo. Tudo cumpre prazo certo.
Aos guardiões vizinhados eram portadores de vozes cansadas, nada mais se soube enquanto cativos. Limpavam e tratavam diariamente do terreiro de cristal d’água e gesso. Lavavam o sangue dentro da facilidade, da economia do tempo – este, sempre precioso, até para as atrocidades vis – queimavam rins sem deixar rastro no chão bem cuidado, trancavam intestinos – delgados e grossos – sem lastimá-los por seu cheiro encrespado de merda. Tem tudo, pois, função na vida!
Pediu, lá pelas altas horas, dignidade. “Não há dignidade na morte”. Foi o que eu ouvi, meio retraído no meu colchão velho. Ainda devia esperar promessas insofismáveis, dizeres de lamentação, tudo o que governam as horas de tragédia. Gritou, miliciano as obrigações existenciais, chorou as lágrimas de perda de amor e de saúde. Agora fazia parte dos gestos febris estacados na fera, na bestial fera que observava e se fazia parte vingativa do pedantismo vitimado, mais que devorando seu corpo, mastigando com azeite o espírito de todas as coisas belas que já houve em si certo dia – porque sim, guardam-se dentro do corpo-sagrado os segredos universais mesmo que nunca desvelados –. Viu nos olhos alcoviteiros o demônio, o diabo que, agredindo, traria o melhor do fogo que consumia: “sou um doce” era o que dizia. E ouvi praguejar, maldições de gerações e gerações. Tudo fruto deste relógio parado, alvitre das lamentações oblíquas de desespero. A dor tem prazer de sair pelos poros. Navega no líquido sólido e ácido do suor. A espinha, no frio persistente de tremor, prepara para o fenecimento atrofiado. A vida saindo, devagar, sem fôlego, sem fumaça para indicar o caminho.
Já quase ao raiar da aurora, o silêncio foi tão grande que sonhei, enfim. Tirei a mão de dentro da calça do pijama – ali morava a realidade das coisas mais minhas que de qualquer um, medidas pelo volume que fazia nas noites mais estressantes – traçando, com os dedos, as medidas do lençol. Ergui o braço para medir a temperatura: manhã quente com possibilidade de chuva durante à tarde. Abri os olhos. Lá, do outro lado da parede de gesso, começou, uma vez mais, a dança torpe de demência. O jogo de resistência do corpo. Em sacolejo reclamava seu direito e invocava, aturdido, as ações de deuses e corpos celestes, as alianças perdidas entre o céu e a terra. Suspirei, afinal, e gritei junto. Chegava desta comida insossa e fugaz! Necessário fosse trazer, de vez, a voz que comporta a mudança, caso seja negado então, tudo permaneça assim, neste tom, no compasso do trágico misturado à remela e ao trapo. Que dispusessem nosso trato. Eu, em minha humanidade feroz, trancada no cheiro fétido da mortalidade contraposto ao Mundo, penetrado em sua imensa e prófuga impessoalidade. E o Ser – este verbo tão anímico – presente, em todos os tempos, entre tudo.
E, houve, então, mais silêncio. Desfiz-me das cobertas, caminhei descalço no chão de madeira. A aurora já coroava o dia e o sigilo insuflava o epílogo duradouro. No instante belicoso a precisão confrontava a suspeita, o período de não-vida pertencente à fé. Agia o andamento de morte em remate às coisas humanas.
Gotejou no ar fresco o sangue frígido. E, como fio condutor, correu em seu emaranhado mais esta marca líquida e alcalina, os traçados quase escuros, nevrálgicos. “O crucial é a existência”. O sangue escorria, marcando as paredes, a mesa e os talheres. E, na proeza das escolhas – só desejo! – chega em um refluxo de infinitude, fabricado e confeccionado de forma simples, o acolchoado de memória seletiva para os lençóis das noites intempestivas. A extinção me sobrevinha, a sombra, o escuro das pálpebras fechadas, a reunião dos aturdidos pelo tempo. Fundei-me onde o ruído vociferava e o tumulto influía os pensamentos. Tinha que segurar no corpo, agarrar-me até às unhas para ter certeza que não era comigo, que eram os vizinhos em suas matrizes de magos. E, para fazer-me real naquela vida fez-se necessário que estivessem ao longo de mim, estendidos, atrás da parede de gesso filtrando o grau dos menos felizes do que eu.
E, assim como as vísceras que se cansam, como as vistas que se cegam, como a libido que se liquefaz, vem junto à mesa de jantar a aversão dos que se sentem repartidos durante a madrugada longínqua. Por onde o tempo pára e cria amplitude. A mesa, da seiva humana e da dor-ardida de existir, impreterivelmente, existir para o inteiro da vida coberto de vazio, de silêncio. O caminho percorrido até o instante perdeu-se em meio ao ocaso, ao desgosto das lágrimas. Tudo perdido-encontrado, fundido e taxado.
Não houve mais replicações nem brincadeiras, o sol abrilhantou na esquina e soaram pássaros e borboletas nas janelas, beijando flores, comendo grãos, firmando o trato da vida comum. O fim era assim, tão passageiro, chegava para uns, firmava para outros e, trazendo o desterro, crescia vigilante comprando as ações competentes da fuga.
Meti a água no fogo, obedecendo ao comando do despertar, flagrei um olhar culpado no espelho. Assim podia correr o dia mais tranqüilo, mais solícito em suas comunicações. O peso desperta o coração, impõe-lhe movimento e medidas ao real. A parede ao meu lado era figurativa e eu a rondava, a perseguia, assim como fugia e a evitava. Era paixão, eu sabia. Cumpri a sina dos homens-humanos, na certa, trouxe com o tempo a medida pelo intenso. Rezei calado minha oração.